terça-feira, 13 de agosto de 2013

Não se preocupe somos felizes.

 Desde sempre soube que basta ser Cristão – autêntico Cristão – não que seja ‘ô’ Cristão, mas ter ‘ô’ desejo, para que muitos nos olhassem com o pensamento: “para que tudo isso?”, “não precisa deixar isso ou aquilo para fazer o bem”, no meu caso, vocacionado ao sacerdócio, o “para que tudo isso” ganha peso um pouco maior, para lutar por um mundo melhor não há necessidade disso, se privar de tanta coisa. Pode-se fazer o bem sem que deixe tanto. Posso concordar, pode-se fazer o bem sem ser padre, claro que pode, e deve. Mas há um mistério neste ministério, a começar pelo chamado, a vocação.

 E confesso essa tentação ronda como um leão a devorar (cf. 1Pedro 5, 8), mas o coração não se deixa iludir ao ponto de que estão certos, de que perco meus dias, meu tempo, minha flor da idade. Meu tempo de formação, a instituição que represento, Igreja Católica, parece perder, mas não é perda, por incrível que pareça é ganho. Não se preocupe somos felizes.

Nunca se iludam, para muitos a Igreja será como Lia (Gênesis 29) , mulher de Jacó. O texto bíblico traz Lia como uma mulher desprezada, mas que dava descendência a Jacó, enquanto Raquel, linda e predileta era estéril, nos olham com desprezo, mas somos nós quem damos a humanidade uma geração santa, frutos bons, assim são os autênticos Cristãos; desprezados, mas que produz vida aos homens. 


 "Tudo bem até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento” (Dom Quixote – Eng. Do Havaí) é assim muitas vezes tratado o Cristão com suas lutas aparentemente fora da realidade, para não ficar sem exemplo; o aborto, essa nova lei que deixa esse país em trevas, a família, com sua tradição, parecem ser murro em ponta de faca. 

 Que luta tosca essa, para quem não vê que o dragão “é um monstro grande e pisa forte” (música: eu só peço a Deus, Mercedes Sosa), não desanimemos o que nos faz lutar é maior que toda aparente razão que tentam nos dá. “Tudo bem seja o que for, seja por amor às causas perdidas” (Dom Quixote), mesmo que digam que está tudo perdido o Amor a esta causa nos garante a vitória, como Cristo na cruz, pesaram: “acabou, perdeu”, mal sabiam que ali começava a vitória mais doce e bela de todas.

Voltando as 'perdas' . Penso até que ao longo do tempo, em especial com o crescente hedonismo e capitalismo os termos se tornaram antônimos em demasiado, não que tenho o romantismo de pensar que ganhos e perdas são sinônimos, mas tenho a firme certeza de que muitas perdas foram ganhos e afinal, quantos ganhos se convertem em nada ou até mesmo derrotas? De uma coisa tenho convicção; toda perda pode se transformar em vitórias, em ganhos.

 Cristão! Não tenha medo de uma ilusória derrota, ali pode ser o início da vitória.

 A música 'Dom Quixote' traz outra frase que me toca, me vejo nela, vejo a sociedade me chamando de otário, “muito prazer me chamam de otário, por amor às causas perdidas”. Sociedade que vive como diz a música, como um “peixe fora d’água, borboletas no aquário”. A lei que rege toda essa cultura é não ter lugar certo para as coisas, para as pessoas, liberdade torta, que escraviza e determina uma manada gigantesca da população.

 O pior dessa ditadura é que ela quer dar essa falsa liberdade de poder estar e fazer o que se quer, mas não deixa o Cristão estar e fazer o que ele acredita, nos condenam por querer ser peixe e buscar o mar, borboleta e lutar pelo paraíso -Jardim (paraíso deriva do termo avéstico pairi-daeza uma área/jardim murada), lutar por uma família e ter nosso filhos.

 E nesse sentido, herói e otário estão em lugares opostos. Não somos os otários, cristão é herói. Heroísmo que chega a dar a vida por aqueles que nos olha como otários.

 Será mesmo otário o homem e a mulher fiel ao seu matrimônio? Aquele que perdoa? O que  se faz eunuco (cf. Mateus. 19;12) pela causa do reino? Que ama seu inimigo? Que luta por causas “perdidas”?

 Será? Claro que não! Essa cultura de morte é o retrato da mulher de Jó que dizia a ele: “persiste ainda em tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre duma vez” (Jó 2;9).

 Persista na integridade, persistamos no Amor, nas causas ‘perdidas’, ainda que pareça em vão cada gesto e palavras nossas, aprendamos com a infinita paciência divina que compara o reino a uma semente que cai pelo caminho (Mateus 13); tenhamos no coração a sabedoria de que aquele que planta uma árvore da qual nunca vai sentar a sua sombra (Rubem Alves) entendeu que o reino acontece e que é Deus quem o quer e o faz suceder.

 Que a cruz nos ensine a não ouvir os impacientes do cronos e nos faça ter total confiança no kairos. 



 Alan Veloso






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